O guia do humano imperfeito para a aceitação corporal

28/02/2018

O que esse conceito significa, como ele evoluiu com o tempo e o que está em jogo se não o defendermos. 

Você provavelmente já ouviu a expressão "aceitação corporal".

Mas o que é aceitação corporal?

Aceitação corporal é reconhecer que todos os corpos são dignos de aceitação e elogio, ou seja, todos são igualmente válidos. É decidir o que parece ser bom e saudável para si mesmo(a) e deixar que outras pessoas façam o mesmo. É entender que você merece viver no seu corpo sem ser alvo do preconceito alheio (seja por meio de comentários grosseiros, oportunidades econômicas reduzidas, cuidados médicos inadequados ou alguma outra coisa) e trabalhar para construir um mundo em que o corpo de ninguém seja vítima desse preconceito.

No entanto, isso não torna ninguém imune à pressão que a sociedade impõe ao corpo.

Todos nós somos humanos e todos nós somos afetados pelo mundo ao nosso redor. É completamente normal ter dias em que você não se sente bem com a sua autoimagem, mas se censurar por isso só vai fazer com que se sinta pior.

Tudo o que você pode fazer é tentar ser gentil consigo mesmo(a) e sempre defender aqueles que estão sendo tratados injustamente por causa de seus corpos. Se você sente que demonstrar amor pelo próprio corpo de forma ostensiva é constrangedor ou performativo demais, talvez se interesse pelo conceito de neutralidade corporal.

"Todas essas pessoas podem ter aceitação corporal." 

Certo, vamos lá! A aceitação corporal moderna é para pessoas de qualquer tamanho.

Já perdi a conta das vezes em que li comentários do tipo "aceitação corporal é só para mulheres gordas." Não é verdade. A aceitação corporal é independentemente do tamanho.

No entanto...

O movimento de aceitação corporal tem suas raízes no movimento pela aceitação da gordura, que apoia a liberação de corpos gordos e luta contra o preconceito que eles sofrem. Ainda assim, a definição coloquial de aceitação corporal foi ampliada - ou, conforme alguns pensam, diluída - para incluir corpos que tradicionalmente não são alvo de tais preconceitos desproporcionais.

[Além disso, agora parece ser um bom momento para fazer uma observação aos que precisam de esclarecimento: não existe isso de "incentivar a obesidade". A obesidade não é um clube no qual as pessoas irão fazer fila para entrar após uma boa panfletagem. Viver alegremente no próprio corpo e não hesitar em compartilhar esses momentos alegres com os outros (ou dar representação às pessoas que normalmente não são visíveis na mídia) apenas "incentiva" a ideia de que você não precisa adiar a felicidade até chegar a um determinado tamanho de manequim ou número em uma balança.]

E é para pessoas de todos os gêneros.

Talvez você tenha notado que o comentário acima falava em "mulheres gordas." Uma das interpretações mais equivocadas é a de que a aceitação corporal não é para os homens.

Não se deixe enganar por esse blablablá e, claro, reconheça que as pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero (ou aquelas cujo gênero não é imediatamente identificável) também devem ser capazes de amar seus corpos e de viver neles sem serem maltratadas por profissionais de saúde, por empregadores (ou empregadores em potencial), pelas autoridades ou por qualquer outra pessoa.

Aceitação corporal não é sinal de vaidade ou futilidade.

Aceitar e amar seu corpo não significa dar mais importância à sua parte externa ou parar de tentar melhorar suas qualidades não-físicas. Para mim, adotar ideais de aceitação física, na verdade, liberou a minha mente para aprender mais sobre o que eu quero da vida, me abrir mais para os outros e trabalhar para ganhar conhecimentos e habilidades que eu havia deixado de lado por estar obcecada com o tamanho das minhas coxas.

E, com isso, não estou sugerindo que abraçar sua própria corporalidade é onde a jornada termina, porque a verdadeira aceitação corporal significa lutar pelo empoderamento (emocional, econômico e além) dos outros. Ainda assim, vale a pena reconhecer que amar o próprio corpo não lhe torna egoísta.

E não vem com exceções.

Seria fácil dividir as pessoas em dois grupos: as escancaradamente contra aceitação corporal e as pessoas "do bem". No entanto, o preconceito com relação a tamanho, forma, características e traços associados costuma vir disfarçado.

A tag #BodyPositiveBut nos EUA trouxe à tona o problema das pessoas que dizem adotar a aceitação corporal apenas por interesse próprio enquanto escolhem os preceitos que lhes convêm, deixando de lado - ou mesmo prejudicando diretamente - as pessoas mais vulneráveis e com menos representação do que elas mesmas.

A verdade é que a real aceitação corporal não está reservada para pessoas abaixo de um determinado tamanho ou para pessoas que se alimentam ou se exercitam de uma determinada maneira. Não é só para pessoas com corpo de violão, ou com pele clara, ou pessoas que se encaixam perfeitamente nas normas hétero ou cisnormativas, ou pessoas que caminham sem bengala, ou pessoas que caminham.

É "aceitação corporal" - não "aceitação só do meu corpo", não "aceitação de corpos como o meu", não "aceitação de corpos com os quais, dado o meu condicionamento social, estou 100% à vontade imediatamente". A verdadeira aceitação corporal inclui a todos. Desafiador? Com certeza; é um saco ter que confrontar os seus próprios preconceitos. Mas é necessário.

A aceitação corporal é necessária, em parte, para combater indústrias que lucram com as nossas inseguranças.

Não se engane: a maioria das pessoas que vemos na mídia não são o que parecem ser. Você nunca irá alcançar o que a Victoria's Secret consegue com o Photoshop, porque nem mesmo aquelas modelos têm, de fato, todas as qualidades que vemos nos outdoors e nos catálogos.

No entanto, por sermos bombardeados(as) com essas imagens desde a infância, tendemos a internalizá-las como reais, atingíveis e o único jeito "certo" de ser - e a gastar um monte de dinheiro na esperança de recriar tal visual. Isso, claro, beneficia a indústria dos dietéticos, dos cirurgiões plásticos e outros.

Não há nada de errado em querer ter uma "boa aparência"; apenas certifique-se de que seja a sua própria versão de "boa aparência", não a de outra pessoa que quer ganhar dinheiro às suas custas.

Criticar o corpo alheio está  fora de questão.

Você pode tentar aceitar seu corpo e ainda assim ter dias em que não se sente ótimo(a) quanto a ele. O que você não pode fazer é aceitar o seu próprio corpo e cagar no dos outros.

Isso significa não elogiar seu bumbum enquanto insulta "vadias magricelas". Isso significa não ficar falando sobre o quanto você está "preocupado" com a "saúde" de alguém que você nem conhece, ou desafiar alguém que critica a forma física dos outros dizendo algo do tipo "se eu tivesse a sua aparência, eu não estaria criticando a dos outros." Significa não chamar uma atleta como a Ronda Rousey de "musculosa demais", mas também significa não responder às críticas como a própria Rousey fez, insultando outros tipos de corpos.

Nunca é aceitável criticar o corpo alheio, não importa a aparência e a atitude do criticado(a).

Ainda assim, vale lembrar que nem todos os preconceitos são iguais.

Antes de qualquer coisa: nunca é aceitável criticar o corpo alheio.

OK, ótimo. Agora que tiramos isso do caminho, é importante entender como a vergonha e o preconceito se manifestam de formas diferentes com tipos diferentes de corpos.

Por exemplo, pessoas magras podem ser vítimas de insultos e até mesmo desaforos disfarçados de preocupação (por exemplo, "por favor, coma alguma coisa!"), enquanto pessoas gordas são vítimas dessas coisas assim como da presunção alheia de fracasso moral (gula, preguiça, burrice etc.), práticas laborais discriminatórias e preconceito e até mesmo recusa de tratamento por parte de médicos.

Pessoas com deficiências ou doenças enfrentam problemas estruturais e preconceitos semelhantes, sem falar na simples falta de acessibilidade em várias partes do mundo.

Mesmo dentro do espectro dos corpos marginalizados, alguns são mais privilegiados do que outros. Por exemplo, roupas estão mais prontamente disponíveis para um tamanho GG do que um tamanho XGG e mais para um tamanho XGG do que um XXGG, e a ideia da forma "certa" de se acumular gordura (leia-se: em forma de "violão", não de "maçã") é tão difundida que as leis trabalhistas de San Francisco, nos EUA, estipulam que empregadores não só estão proibidos de discriminarem com base no peso, mas também na distribuição desse peso.

"Angela
Desenvolvedora
Gosta de gatinhos
Faz exercícios 4 dias por semana


Stacy
Fotógrafa
Gosta de cachorrinhos
Faz exercícios 4 dias por semana"
 

O primeiro passo para a "cura" é admitir que você tem um problema.

Quer entender melhor a dinâmica discutida acima? Pense na diferença, se houver alguma, na sua reação ao ver uma pessoa magra comendo uma pizza versus ver uma pessoa gorda comendo a mesma pizza. Ou leve em conta como, enquanto uma pessoa gorda usando calça de moletom e camiseta continua sendo o arquétipo da "pessoa preguiçosa", consumidores demonstram aprovação do mesmo visual em corpos magros, adotando ardentemente a moda esportiva casual.

Não tenha medo de refletir sobre a sua reação instintiva às diferentes pessoas nessas situações. Se a sua primeira impressão muda conforme o tamanho ou forma das pessoas envolvidas, seja sincero(a) consigo mesmo(a). Você foi ensinado(a) a fazer essas suposições, mas também tem a capacidade de questioná-las.

Não fazer comentários negativos ≠ não ter conversas francas com seus entes queridos.

Apesar de eu não acreditar que estranhos aleatórios se importem com a "saúde" de gente que nem conhecem, é óbvio que todos nós nos preocupamos com as pessoas que realmente conhecemos e amamos. Caso você se preocupe legitimamente com o bem-estar de um membro da sua família ou amigo por causa do tamanho dele(a), você pode declarar suas preocupações de forma solidária, perguntar se essa pessoa está bem e se oferecer para ajudá-la caso ela precise.

Não é questão de "censura" ou de ser "politicamente correto"; é apenas uma questão de maturidade e nuance. Converse com as pessoas que você ama. Deixe claro o quão importantes elas são para você. Escute o que elas dizem. Importar-se verdadeiramente com alguém exige esse tipo de intimidade.

E você não precisa sentir atração por todo mundo.

Às vezes, acho que as pessoas têm relutância em abraçar a aceitação corporal por um medo, mesmo que inconsciente, de que ela irá fazê-las cair em uma armadilha na qual tenham que transar com pessoas pelas quais não sentem atração. Mas como a aceitação corporal se baseia em lutar pela igualdade para tipos diferentes de corpos e em pessoas tomando posse de seus próprios corpos, seus princípios na verdade incentivam as pessoas a expressarem consentimento (ou a falta dele) caso estejam em uma situação que peça isso.

Moral da história: você pode tratar as pessoas com sensibilidade e respeito mesmo não sentindo atração por elas, e qualquer um que tente lhe pressionar a atividades românticas ou sexuais sob o pretexto de uma suposta aceitação corporal está errado, para dizer o mínimo.

Contudo, talvez você deva pensar por que gosta de quem você gosta.

Se você sente atração exclusivamente ou principalmente por, digamos, rapazes brancos, cis, com mais de 1,80m e menos de 110 quilos que não tenham deficiências físicas, é direito seu (contudo, não precisa fazer um escândalo por isso). Apesar de você não poder necessariamente se "reprogramar" para sentir atração por uma variedade maior de pessoas, é importante examinar se as suas preferências são resultado de um condicionamento social malicioso.

Será que você, como indivíduo, realmente não sente atração por mulheres com pelos nas axilas ou será que você apenas internalizou mensagens dos fabricantes de lâminas dizendo que mulheres não têm que ter pelos nas axilas?

A beleza de pôr a aceitação corporal em prática é que isso incentiva o entendimento de que você tem opções em vez de imperativos, de forma que você pode descobrir quais as coisas que realmente quer em vez de apenas as coisas que se espera que você queira. E sabe de uma coisa? Questionar o que você antes pensava ser objetivamente verdadeiro pode abrir portas para pessoas maravilhosas e sensuais.

Finalmente, saiba que a linguagem em torno de corpos é complicada, e faça o seu melhor.

Quando algumas pessoas usam a palavra "saúde", na verdade elas querem dizer magreza. Quando outras a usam, elas levam em conta que a) não dá para dizer o quão saudável é uma pessoa apenas olhando para ela e b) o bem-estar mental, que forma grande parte da saúde, pode ser negativamente afetado por mensagens individuais e sociais sobre o que corpos "deveriam" ser.

Da mesma forma, "curvilínea" é uma palavra empoderadora para muitas pessoas, enquanto outras preferem apenas "gorda" - mas, de qualquer forma, cada um decide como quer ser chamado.

Nem sempre você será perfeito(a) com essas coisas; ninguém é. Mas basta oferecer aos outros o respeito que você gostaria de receber e se esforçar sinceramente para se informar e aprender com seus erros.

Finalmente, autonomia física é essencial.

Essencial para você mesmo(a), mas não apenas para você. Aceitação corporal é uma questão de construir um mundo no qual todos possam viver em seus corpos como preferirem, recebendo o mesmo respeito, representação e oportunidades que todas as outras pessoas. Portanto, explore os motivos pelos quais você sente o que sente com relação ao seu corpo, decida com base nesses fatores quais são as decisões corretas para si e aja com gentileza e empatia com relação a outros corpos.

"Eu sou merecedor(a), e você também é."

Texto: BuzzFeed

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